Friday, October 30, 2009

Lua, gole só.

Cama, mar adentro, lambida fria. Lençol, floresta branca, respirar aninhado. Pés, pássaro busca entrepenas, sorriso, linha fina. Onda vira, ninho aperta. Dedos, alga no mar, acertam fios, cerram olhos, insistentes, Sede, revira mar, gole, outro, quase nem, Mais? Hu-hum, braços, coloridos balões carros, macios, terra molhada. Branco ondula, calmo. Olhar, lua na água, corre chuva pipa céu choro noite gole abraço corte dedo sangue sorriso beijo colher lambe neve borboleta ao redor, lábios, nau, sol inunda, Dorme bem, noite estala, canta. Emudece.

Tuesday, October 27, 2009

N'água leve, leva.


 
 
 

Thursday, August 20, 2009

Sol, de lá.

Noite, sorriso alto. Olhar: fim de tarde beijo, Fica, dente nos lábios avião no céu, Fica, sussurro, ponta do nariz, vidro da janela, estrelas, afogadas. Fios, negros, soltos, dançam lágrimas.

Papel, ida. Braços, Tenho que ir, gole de vidro, Fica, gotas na camisa, aperto de mãos, costas, boca, língua, longo.

Olhos: sol sono sonho. Último botão, casaco no braço, Bom dia. Ilha mar de ressaca alga na areia, Que horas?. Lençol, onda arranhada. Abraço, cão atrás do rabo, rouba passada, Volta. Manhã emudece.

Falei que sim, vou. Grama cortada chuva terra mangas no chão. Olhos, pipa ao vento. Folhas, aceno, unha no quadro, passo, outro, outros, arfar, longe, Vai. Sol, náufrago.

Thursday, August 13, 2009

Olhos, fim de tarde.




Sorrisos, um.





Friday, June 12, 2009

Daqui, de longe.


Friday, April 17, 2009

Há barcos, além.


Thursday, March 19, 2009

Neblina.

Olhar, vaga-lumes, bicicleta na chuva. Viu, nem doeu. Dedos, esgueirados, apertam chuva, rugas, brilhos. Aros grossos, escuros, onda, ponta do nariz. Faltou o sorriso. Esboço, quase. Tateia bolso da camisa preta, celofane, papel, letras, amassadas, Na xícara, o último, Toma, pele clara, ganso alcança migalha, Você agora?, Tem tempo, chama no rosto, fumaça, sobe, Outro café? Tem tempo?, vento na água, cortina marola manhã derramada quarto quase vazio espelho berço vestido onda quebrada olhos busca, sorriso. Sorriso, Tem tempo. Áspera, a palma, rosto testa larga grisalhos, desalinho, branco da xícara, dedos, juntos, instante, fios emaranhados no teto, Deve estar frio, faço outro, Não, tá bom. Caminhar carrossel, gole ainda na mão, neblina. No canto, mancha, pequena, poeira, preto e brancos, pés juntos, pássaro voa, mãos afagam cachorro, casca de árvore, calçada, chapéu e jornal, Grande aqui, Está bagunçado, cabelos, cata-vento negro, caneta segura o giro. Sua mãe está preocupada, brasa, acende, Olha, não começa essa, Perguntou se você quer a cama. Estrelas no lago. Olhos, gota no mar, mergulham, vôo de coruja, janela fechada. Noite, fria, gole só. Nuvem outra, fagulha, pulsa, Não, não precisa. Linha, dança, Está tarde, passos, casaco deita no braço, fumaça cobre o rosto. Trem, parte. Porta, fechada, Aparece, vento na grama.

Tuesday, January 27, 2009

Asas e pernas para 2009.





Thursday, November 20, 2008

Penas, pena.





Tuesday, October 14, 2008

Allá, los niños.





Saturday, August 30, 2008

Lua velha.

Vai e vem arranhado no branco da janela. Fresta. Cortina, alga no azul, fundo. Língua, dourada, brilhospontos. Borboletam uns, outros pousam. Tacos, mosaico de tons, beira da colcha, ao lado, gaveta quase aberta, madeira escura, marca do copo. Passo firme mão pesada enxuga o tampo, tarde, Já falei mil vezes, recolhendo outro. Outro anel. Verniz, lasca faltando, Quando?, luminária apagada, caixa de lenços, Tantas, caneca, olho, vazio, ainda molhado, Nem mais quantas.

Lençol, mar movimento, trama do sono. Braço, balsa amarrada. Travesseiro e rosto, pedra na água, mergulho no meio, grisalho dos fios, soltos. Ar ruidoso, lenta marola. Vez ou outra, silêncio, curto. Não essa. Onda suspensa, gota no ar. Peito, galope, goles de vidro, Será que agora pelo menos dormindo pára com isso que dia é hoje ligo para quem, Mãe? Copo, borda só, Socorro, Mãe? lua velha. Olhar, encharcado, dente estala ponta da unha. Água no cais, remanso. Rede na praia, Filha? Cacho preso atrás da orelha, lábio acanhado, Pensei que, nada, seu remédio. Juntos, dedos, linhas na palma, azul aninhado, pele, mesma, um dia Vida longa dois filhos casal homem bonito na sua vida, gargalhadas mais tarde. Gole, pequeno, Bebe mais, Depois, Vou deixar aqui. Olhar, olhos, anéis no céu, escuro. Água, dança. Do bolso, cortiça, jangada clara, mar na noite.

Pés, juntos, vergonha nas mãos, mecha insistente, sorriso quase, olhar, pássaro, Fecho a porta?, Não precisa. Corredor, manchas de sol, Filha?, gato antes do pulo, mão envolve o frio, Fecho? Não, nada, é que, nada, vai lá, filha, vai. Lagos, juntos, espelhos de frente, te amo engolido, passos, fracos. No sofá, almofada nos braços, choro abafado, um pé sobre o outro.

Onda arrebenta, pano flutua, olhos no mar, fio dourado desenha dobras. Jangada, cristal, bolha, só, solta, sobe, some. 

Tuesday, August 19, 2008

Tons.



Outros bichos.




Sunday, August 17, 2008

Belezas ou.



Faro.



Tuesday, August 12, 2008

Um pouco de cor.



Monday, July 28, 2008

Por todos os lados.




Tuesday, July 22, 2008

Ainda, latidos.



Latidos.




Tuesday, July 08, 2008

Perto, nem sempre.



Porque está lá.







Tuesday, July 01, 2008

Cores?





Há onde o inverno é sempre

Pontas dos dedos brincam com fio solto da cortina. Murmúrio da chuva envolve a primeira manhã de julho. Vermelho-terra embaçado do prédio em frente. Acostumados ao olhar, lado a lado, pequenos quadros a guardar olhares outros, sorrisos, torradas, café, abraços, acenos, outra página de jornal. Apito da chaleira. Azulejos e passos dividem o frio. Giro do botão engordurado, últimas borbulhas, silêncio. Pano de prato pendurado pelo furo chamuscado de um descuido dia desses. Na xícara, turvo rodopiar, polvo assustado, vapor perfumado aos olhos. Goles de susto a fugir do calor do chá. No mármore, manteiga na faca, farelos do pão, De ontem?
Se ainda fumasse, um cigarro. Um fósforo, então. Amargo nos lábios. A ponta do tapete virada. Farelos, tapete, chão. Em azul, rápidas letras miúdas, café, vinagre, papel toalha, pasta de dentes, pregados com imã calendário, telefone da farmácia. Manteiga, Acho que também acabou. Já depois que ela. O que sobrou do fósforo no lixo, Tenho que tirar. Encarei a porta e o batente escuro emoldurou o que ainda não saudade mas já um aperto, demasiado. Cabelo atrás da orelha, leveza da mão a esfregar no rosto o sono e o bom dia afogado em bocejo, pantufas até a geladeira. Até aos domingos, mesmo um pouco mais tarde, eu acordado, caneca cheia, encostado à bancada, ela, sono, pantufas, o lençol desenhado no rosto, pernas. Não mais.
Nem tanto tempo assim, outro dia ainda. Porta aberta, bolsa no ombro, sacola cheia, um sapato para fora, Pego o restante depois, o olhar, folha no rio. É isso?, escapou-me arranhando garganta, chave no bolso, Depois devolvo, pés no carpete, E as coisas?, Depois a gente pensa, e o corredor já lhe abraçava a voz, o martelar do salto. Outro dia ainda. Depois a gente pensa. Depois. Marca da maçaneta, sempre marca, os dois, preto e branco, crianças, E a moldura?, Você escolhe, Preta, larga, pescador de costas encarando o lago, azul, azul-quase-preto, emoldurado, fora de prumo. Continua.
Se ela não o levar, talvez.

E os pássaros?

Chicotear afoga o laranja da tarde. Ruidosa cortina apressa a noite. Céu estalado no peitoril, bordas molhadas, tons de verde. Janela, instante ave, aplaude o vento, quase vôo. Pés e barra da calça, sobras de estalo, de verde, frio. Arranhar da esquadria, Vou chamar o, clarão no cinza manchado encontra linha dos prédios, O computador, outro dia mesmo. Estrondo, Telefone, será que precisa? Se ela ligar?.
Dedos, só a ponta, no agitar do vidro. Escorre o dia. Guarda-chuva, peão de criança em final de giro, passos de susto, bolsa molhada no alto da cabeça, vela de jangada puxada na mão, pernas finas, branco dos sapatos, flores, desfeitas. Um pulo, flor aberta, outra se perde em água. Rodas aram rio, onda no pano da jangada. Navegar turbulento, pouco mais. Teto de concreto, parede, uma só. Pescoço espichado, olhar de espera. Cachorro, também náufrago, debaixo do banco. Novamente linhas acesas, Esse mais fraco, ou longe. Pêlos, momento céu, espalha chuva em susto, pé batido no chão, chute no ar, rabo e patas corrida alvoroço.
Branco, fachadas janelas calçada. Navios ao chão, As tomadas. Sofá para o lado, tapete embolado, finas patas, caminhar delicado, poeira, cabelos, fuga emaranhada. Tapete, azul, vermelho, descalço, Eca, amarelo manchado, Tenho que limpar antes, Por que não liga?. Mão segura o fio, Já está passando, será que precisa?. Suspiro, desabado, pernas cruzadas, almofada no colo. Telefone, cinzeiro, lembrança de salv, Quebrou na festa, nem um mês, última. Vestido claro, alça caída, marca da praia, quase o rosa, Ajeita, tá todo mundo olhando, continuou dançando, sorriso solto, gelo e dedos, criança na água. Criança na sala.
Lampejo, distante. Quase nem fachada. Quase noite. Chiado em marola, ainda aplausos. O horizonte, janela. Acesa, uma. Galhos e folhas, algazarra, Para onde?. Corpo aninhado, rosto no braço do sofá, Ela bem que podia. Outra janela acesa. O olhar, neblina, misturando contornos, farfalhar, longe, mancha no tapete.

Thursday, April 17, 2008

Saudades do Araguaia





Friday, February 01, 2008

Manhã no hotel

No horizonte, o sol espreguiçou seus longos braços expulsando a noite. Janela aberta, suave embalar das cortinas, fios da manhã a invadir o quarto. Linhas douradas a lamber o cheiro do vinho, dos beijos e da fina poeira a dançar o dia deslizaram revelando contornos da cama, a ponta do travesseiro, seu rosto.

Nos lençóis, leve marola do respirar de um sono tardio. Ombro nu, nau à deriva em quase sonhos, entregue ao terno roçar da barba rala e dos lábios ainda acordados. A ponta do meu nariz correu a curva até a nuca. Tímido eriçar da pele, náufragos espalhados, ombro, nuca, braço.

Em abraço, acolhi náufragos, nau, sonhos a começar. Afoguei os olhos na claridade de seus cabelos. Um chá, uma tarde chuvosa no Leblon, várias vezes uma praça colorida em Londres, o silêncio de uma canoa rio abaixo, beijo suado no alto de uma pedra. Sorri.

No sorriso, canoas, beijos, praças a flutuar no quarto cheio daquela manhã insistente. Quis o sono, a noite de volta, mais de você.

Borboletas pálidas

Sentado na cadeira de sempre olhava as mãos. Em tudo esbarravam antes que os dedos conseguissem se firmar em algum objeto. Naquela manhã estavam especialmente agitadas e o vidro com os pequenos comprimidos brancos balançou mais que o usual antes de ser aberto. Engoliu dois deles com ansiedade e o último gole do café já frio na xícara. A tampa plástica dançou na abertura até fechá-lo. Devolveu-o ao bolso trêmulo do casaco e virou o rosto para a janela querendo ver o sol que não estava ali.
As mãos indecisas sobre o colo esfregavam a dor da idade que começara aos poucos, anos atrás, envolvendo apenas os nós dos dedos. Hoje a dor já passeava junto com as rugas e as manchas que lhe subiam os braços até os ombros e se deixavam cair pelas costas misturando-se às feridas da vida sozinha. Tentou encontrar em meio a outras tantas preocupações com remédios, dores e o sono que já não tinha, um motivo para se levantar. Desistiu engolindo saliva e o gosto do café frio ainda presente. Passeou os olhos turvos pela sala empoeirada. A estante com os livros há muito fechados, o porta-retrato vazio, o sofá bege manchado e gasto combinando com o carpete.
Levou a mão trêmula ao rosto e deixou que os dedos pousassem sobre a bochecha. Coçou as manchas, sem pressa, com os lábios entreabertos. Os poucos fios de barba já brancos e sem determinação se deixaram embalar pelos dedos inseguros. A mão aos poucos foi baixando e por instantes parou no ar, como as borboletas, agitada, indecisa, trêmula. Olhou-a flutuar ali por alguns instantes. Irritou-se com o movimento, irritou-se mais uma vez com o vôo independente da mão que há muito não controlava. Respirando fundo levantou os olhos e os deteve na luminária que guardava mariposas.
Pensou em voltar para a cama. Dormir. Dormir para não ver a velhice, mas o sono desistira dele pelo caminho. O sono o deixara sozinho com seus olhos abertos e os pensamentos confusos. Deitava e ficava imóvel tentando enganar-se que dormia. Querendo empurrar com as pálpebras o tempo que se tornara única companhia. O tempo. Que ficava ao lado, sempre. Para sempre. Tempo que não o deixava ir, nem tampouco retornar. Que não o deixava esquecer, mas não lhe facilitava as lembranças. Tempo que não o deixava mais decidir, apenas lamentar, sem efeito, para mariposas confinadas. Tempo que lhe roubava o calor do café e lhe trazia em mãos as dores.
Lembrou-se da foto arrancada do porta-retratos por ele mesmo, em um momento de raiva, quando ainda não existia o vôo. As lágrimas transbordaram de seus olhos lavando as manchas no rosto, salgando os lábios, caindo sobre as borboletas pálidas em seu colo. Queria conseguir dormir, sem o tempo. Queria conseguir dormir sozinho. Sonhava acordado com um sono sem dor, sem lembranças, sem pressa. Quis enxugar os olhos, mas o bater das asas pálidas o impediu. Derrubou-as sobre a mesa com força. Com raiva. Deixou seus olhos chorarem. Deixou-os, olhando as mãos, chorando o tempo.


(Publicado no Caderno Pensar do Correio Braziliense no dia 24 de abril de 2004.)

Sunday, March 05, 2006

As folhas nem sempre caem.

Somente a ponta do meu nariz tocava o vidro da janela. A cidade lá em baixo lentamente sumia perdida em minha respiração. Meu olhar, lânguido, acompanhava o leve embalar das folhas que se lançavam ao ar em um rodopio sem fim. Entusiasmadas bailarinas buscando o solo. Trêmula, uma delas soltou-se da árvore, mas não caiu. Por instantes acompanhei aquele võo bêbado. Meus olhos, que se divertiam comigo, revelaram-me as asas que pareciam não se entender. A inconstante mancha amarela subia em minha direção. Voou leve até meu rosto e pousou, fazendo-me por reflexo afastar o nariz do vidro. Era como se não houvesse ali janela alguma. As asas, agora mansas, exibiam-se para mim,. ostentando o que parecia um delicado desenho a mão. Levei o dedo vagarosamente até a janela e imaginei-a pousada nele. Deslizei cuidadosamente a janela e, com a respiração presa, coloquei a mão para fora. O vento frio alisava-me os dedos enquanto eu os aproximava dela. Levantara as asas, ingenuamente escondendo-se de mim. Um sorriso suave brotou em meu rosto, delicado cortejo entre dois estranhos. A eternidade se passou sem que nada fizéssemos, a não ser estar ali nos conhecendo. Ela então abriu timidamente as asas por duas vezes. Como um adolescente que tem o pedido aceito e, ao qual nada mais resta que estender a mão àquela que será sua companheira durante toda a música, toquei-lhe suavemente a asa. Voou. As lindas manchas amarelas pintavam meus olhos e a afastavam, deixando meu gesto se desmanchar aos poucos, abandonando-me com a cidade e as folhas que continuavam a cair.